“ Então, Levi falou e disse a Pedro: “ Pedro, sempre foste impulsivo. Agora vejo-te a exercitar-te contra uma mulher como se fosse o adversário. Se o Salvador no entanto, a tornou digna, quem és tu para a rejeitar? É bem verdade que o Salvador a conhece perfeitamente, por isso a amou mais do que a nós.” 

Evangelho Gnóstico de Maria Madalena 

 

Maria Madalena, ou Maria de Magdala, foi a personagem bíblica mais desvirtuada e ocultada por intenções manipulativas que surtiram nas «verdades» divulgadas ao longo dos séculos pela Igreja e pela escolha dos textos Bíblicos. Paralelamente a este contexto de deturpação da verdade, uma outra via tem sido mantida na sombra dos tempos, pela Tradição e pela Arte ao longo de mais de dois mil anos de história Cristã.

Nos textos apócrifos, escritos entre os séculos I e III, Madalena aparece-nos como a encarnação de Sophia, a Sabedoria, considerada como reveladora da doutrina gnóstica, a que conhece o Todo.

Existem referências a um Evangelho de Maria Madalena tão antigas como do século III, que foram resistindo ao tempo e às intempéries, aos decretos papais que a anularam para a comunidade cristã e ao fogo a que condenaram tantas outras páginas de textos considerados apócrifos.

O Evangelho de Maria Madalena vem trazer ao Mundo uma das vias mais francas, a par com toda a polémica que levanta em relação aos procedimentos da Igreja. 

Muito já foi pronunciado acerca de Madalena, da sua ligação a Jesus, da possível descendência resultante deste amor, muitas foram as evidências históricas e as teorias tecidas por inúmeros pesquisadores. Porém, no lugar de procurarmos unicamente satisfazer a nossa curiosidade mais novelística, devemos em essência reflectir no porquê das evidentes intenções patriarcais do ocidente cristão. Madalena viu a sua imagem ser adulterada com o intuito de desautorizar o apostolado feminino, contribuindo assim para a configuração da identidade feminina marcada pela baixa valorização e, naturalmente, pelo escasso poder atribuído às mulheres. 

Madalena é a reveladora da Gnose, a Companheira do Cristo e a Centelha Anímica dentro de nós. A que se completa pela sua reunião ao Salvador, completando-O. No Evangelho de Filipe, Madalena é a mulher de Cristo não só na aparência como na intimidade. Não existe nenhum fundamento plausível que apoie o insulto de prostituta a ela lançado, senão a necessidade de mostrar um Jesus “puro”, mas desfigurado sem a presença do Eterno Feminino.

Desta forma, tudo o que é encontrado apenas nos mostra Madalena como a peça fundamental do Religare, a mulher que acompanhou Jesus e permaneceu ao Seu lado para além do horizonte natural. 

O Evangelho de Maria Madalena traz o modelo da orientação cumprida por quem está espiritualmente mais sublimado, independentemente dos papéis sociais. É uma estrutura que comprova que Madalena e as mulheres em geral não caminharam somente na orla da formação do cristianismo. 

Ao contrário de hoje, Cristo não compreendia a discriminação de sexos ou géneros, e assim deitou por terra várias regras estabelecidas pela comunidade judaica, sendo que um dos exemplos mais demonstrativos dessa prática foi a atribuição de um papel mais importante às mulheres dentro dos seus discípulos.  

Para Ele, Masculino e Feminino têm a mesma face, Deus que também é Deusa. Se a natureza de Deus é masculina e feminina, tem toda a lógica, para um crescimento da Fé e da Razão, a libertação do feminino em dignidade para que o divino se manifeste por inteiro. 

A Deusa já tinha sido conquistada e velada por um cristianismo de tributo ao Pai criador, sendo a Criação um atributo feminino, foi desta forma estranhamente atribuído ao Deus. No entanto, a Igreja, ponderada, permitiu que as qualidades do Eterno Feminino da Deusa, necessárias para a envolvência e adesão do povo no seu processo de doutrinação, fossem absorvidas por Maria, a Virgem.

A Virgem Maria vem expressar um atributo especial da Deusa que é a Pureza, contudo convertida numa sexualidade negada na precedência de outro atributo que é a Maternidade.

Madalena, assume outra face da Deusa, a Amante, aqui é que a questão da sexualidade a torna impura, remetendo-a à condição de pecadora.

De qualquer uma das formas em que a Deusa é representada encontra-se imperfeita e destituída da sua plenitude, como que dividida por todas as mulheres das Escrituras.  

Aos poucos Madalena foi-se desvanecendo nas brumas de textos envelhecidos pelo passar dos séculos, catalogados em pesadas prateleiras que nunca viram a luz do dia. Assim, a mulher cristã ocidental ficou sem referência da divindade feminina. 

Hoje, o arquétipo de Maria Madalena faz cada vez mais sentido, ser como Maria Madalena não é ser pecadora, culpada ou restringida de expressar o seu desejo de viver uma vida repleta, sexualidade plena e relações perfeitas.

Madalena representa a companheira, amiga, irmã, amante, igual, discípula e mestre, Mãe. O desempenho de todos estes papéis reunidos num único ser, a Mulher, é um acto de realização plena, totalidade da Deusa, igual ao Deus. 

Madalena é o Arquétipo Feminino transformador para a complementaridade do Ser. Representa a igualdade e a transcendência do feminino, Sophia, a Sabedoria para procurar e encontrar o Filho do Homem. 

Susana Maurício

 

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